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história do Rio - Palácio Monroe

Já parei para tentar entender a cabeça de nós brasileiros e brasileiras acerca de nossa história, e não consegui chegar a um entendimento. Eu mesmo defendo com veemência, por exemplo, a demolição do estranho elevado da Perimetral. Só que movimentos como este, simplesmente fazem sumir da memória uma porção de contos e momentos das nossas vidas. Hoje eu venho neste espaço que criei para proclamar a histórias do Rio que, nesse tempo, venho descobrindo em profusão. Há tempos descobri que até 1976 existia ao fim da Avenida Rio Branco, onde há o chafariz monumental, um palácio de proporções gigantescas, guardião da história da República e que devido a esse pensamento ao qual já disse não entender, veio abaixo, sendo, simplesmente, apagado das nossas memórias. O Palácio que foi erguido em 1906, durante os governos Rodrigues Alves e Pereira Passos, foi sede do Senado Federal até 1960, quando a capital foi arrancada do Rio rumo à Brasília.

Representação histórica do Palácio

história do Rio - construção - palacio MonroeO palácio foi concebido em 1903, para ser Pavilhão do Brasil na Exposição de Saint-Louis, nos Estados Unidos, que aconteceria em 1904. A obra seria a representação do país no evento, devendo enquanto tal “ter aproveitada toda a estrutura, de modo a poder-se reconstruí-lo nesta Capital”, conforme exigia a cláusula 1ª do Aviso nº 148, datada de 3 de julho de 1903. E assim foi feito. Foi concebida pelo engenheiro Militar Coronel Francisco Marcelino de Souza Aguiar. Construída com uma estrutura metálica desmontável, a obra foi erguida e exposta em Saint-Louis, conforme previsão. A obra chamou tanta atenção dos norte americanos que foi contemplada com a medalha de Ouro. Sucesso total. Foi a primeira grande vitória da arquitetura nacional na comunidade internacional.

História do Rio - Palácio Monroe

Após o evento e premiação, o monumento foi desmontado e trazido para a Capital Federal que passava por um processo de modernização intenso sob a batuta de Pereira Passos que, ao derrubar cortiços e becos, dando lugar a grandiosas avenidas e construções, tentava mudar o cenário de sujeira e caos que o Rio passava para o mundo. Além disso, contava com total apoio do Presidente Rodrigues Alves que desejava ver a cidade higienizada e totalmente modernizada. Dessa forma, a República se consolidava diminuindo seus opositores que perdiam força em meia a criação de um imaginário de grandeza que tomava conta e legitimava o poder estabelecido. Assim, premiado, a estrutura veio ao Brasil e foi montado na região da Cinelândia, bem à direita do obelisco que lá existe até hoje.

Até o ano de 1914, o Palácio foi apenas palco de exposições. A partir daí, virou a Câmara dos Deputados, já que o Palácio Pedro Ernesto encontrava-se em construção. Em 1922, no primeiro centenário da Independência e com o fim das obras, passa a ser o Senado Federal. Virou palco marcante da República, com marcantes desavenças políticas, como a dissolução do Parlamento durante o Estado Novo de Getúlio Vargas. Em 1960, com a transferência da Capital para Brasília, passou a ser sede do Estado-Maior das Forças Armadas (EMFA), instituição de respeito, à época, em que os militares acabavam de tomar o poder no país.

A partir desse momento, começam os movimentos pró-preservação dos monumentos históricos da cidade do Rio de Janeiro. O Iphan ganham espaço no cenário, mas forças contrárias ao Palácio começam a tomar conta. A partir da década de 70, principalmente com as obras do metrô, isto se intensificou. Os engenheiros da obra faziam de tudo para não chegar ao monumento, mas, dessa forma, as obras atrasariam. Foi quando, pelo Governo do Estado, foi decretada a demolição do Palácio Monroe. Havia no país, nesse tempo, um grande movimento pró-demolições que contava com a participação de arquitetos modernistas como Lúcio Costa. Além disso, alegava-se que ele prejudicava o trânsito da cidade e que, segundo o Presidente Ernesto Geisel, atrapalhava a visão dos monumentos aos Pracinhas da 2ª Guerra Mundial.

Destruição Palacio MonroeApesar dos movimentos contrários à demolição, em 11 de outubro de 1975, o Presidente autorizou definitivamente a destruição do Palácio e de mais um pouco da nossa manchada história. Em 1976, o premiado monumento de apenas 70 anos e de imensa história guardada em suas estruturas, veio abaixo, dando lugar a um chafariz. Isso mesmo, um chafariz. Não há estradas, não há benfeitorias. Há um chafariz. Mais um legado terrível da ditadura e da política combalida deste país. E o detalhe é que ele foi simplesmente deletado da nossa história. Você que me lê nesse momento provavelmente não sabe de sua existência. Mas as fotos mostram o tamanho da tragédia.

Mas enfim, chegamos à modernidade discutível da história do Rio

O Palácio Monroe fazia parte da construção de um país melhor, mas desenvolvido, menos sujo e mal visto perante o mundo. A cidade, de fato, passou a ser mais moderna, condizente à sua beleza. Aterros foram necessários, assim como hoje acho necessária retirada da Perimetral para revitalização da zona portuária. Aliás, o elevado fora construído na ditadura também e, nessa época, existia tudo, menos amor ao país. A nobre Avenida Central, que foi concebida para ser grandiosa, foi passada de um pedaço da França para ser um retalho de Nova Iorque. Terrível, mas tínhamos até construído uma identidade cultural. Afinal, somos europeus de nascença e não norte-americanos. A velha Avenida Central me agradava mais. Os tempos de elevação da história da cidade do Rio de Janeiro me agradavam mais. Mas, como somos meio Maria-vai-com-as-outras, por uma esmola ou outra simplesmente nos deixamos para trás.

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